HISTÓRIAS DO SURGIMENTO DAS SOCIEDADES COOPERATIVAS.
(*) Geraldo Volpe de Andrade
Rochdale cidade da Inglaterra, próxima a Manchester, foi o verdadeiro berço do movimento cooperativo moderno.
Com os conhecimentos adquiridos dos Precursores, colocaram em prática métodos seguros de organização e de funcionamento.
Em 21 de dezembro de 1844, foi instalada em um armazém, a Cooperativa, com um resultado do amadurecimento pelos métodos administrativos nela aplicados.
Constituída pelos pioneiros de Rochdale, teve origem em uma greve fracassada de tecelões de flanela.
No termino de 1843, 28 tecelões pobres e necessitados, iniciaram reuniões, buscando uma maneira de melhorar as situações de pobreza em que viviam.
Com certos conhecimentos advindo dos grandes Precursores do Cooperativismo, passam a reunir um pequeno Capital, que permitisse a criação de uma sociedade cooperativa.
Convêm aqui transcrever parte das preposições contidas no estatuto que merecem ser lidas:
"A sociedade tem por objetivo e plano tomar medidas para garantir o beneficio pecuniário e a melhoria das condições sociais e domésticas de seus membros,"...
O estabelecimento de um armazém para a venda de comestíveis, roupas, etc.:
Comprar e construir casas destinadas aos membros que desejarem ajudar-se mutuamente para melhorar a sua condição doméstica e social;
A Sociedade comprará ou arrendará um ou mais lotes de terra para serem cultivados, por aqueles que estiverem desempregados ou cujo trabalho for mal remunerado:
O artigo 42 também merece ser transcrito por defender aquilo pelo que hoje batalhamos arduamente, ou seja, a educação:
"Será constituído um Fundo Especial para o aperfeiçoamento intelectual dos membros da sociedade e de suas famílias, quer pela manutenção da Biblioteca já estabelecida, quer pela criação de outros meios de instrução que julguem necessários."
Não pensam eles somente em organizar armazéns, pensam também na educação intelectual, planejando construção de casas para os Associados; ter também uma secção industrial e mesmo agrícola podendo dar aos Associados um trabalho para independência econômica. (Paul Lambert, La Doctrine Coopérative, Apêndice (Bruxelas e Paris, 1959).
Outros princípios: distribuir os lucros entre os associados, na proporção das compras feitas para eles, que teve como redator Charles Hoswarth; Princípio das portas abertas, o da venda a vista; de um voto só para cada Associado, igualmente a homens e mulheres; remuneração do capital, a venda de mantimentos puros e garantidos; a venda a toda e qualquer pessoa, mesmo a estranhos.
As ousadias destes 28 tecelões vieram a transformar o mundo. "A sorte ajuda os ousados." ("Fortes fortuna iuvat").
Em 21 de dezembro de 1844 iniciaram a sua luta, tendo um estoque pequeno e deficiente em produtos, tendo somente farinha, aveia, manteiga, açúcar e velas de sebo. Veio depois o chá, fumo a carne após dois anos, em 1846.
Em fim de 1845 eram 80 o número de Associados. Até 1844 abril de 1851 contava com 630 Associados e, passou a abrir durante todo o dia. Anos mais tarde, em 1857 tinham 1.850 e dez anos depois, em 1867, 5.300 associados.
Crescendo a cada dia em 1860, foi constituída uma organização de seguros que teve o nome de "Sociedade de Previdência para Casos de Enfermidade e de Socorros para Funerais" e, mais alguns anos decorridos constituíram uma nova "Sociedade para a construção de casas econômicas". Em 1867 construiriam 36 casas para os seus Associados.
Preocupados também com a educação, em 1849 organizaram uma Biblioteca Cooperativa, onde se encontram livros, revistas, jornais e estetoscópios, microscópios e telescópio. Em 1869 possuía a biblioteca 7.000 volumes e 11 salas de leitura.
Em 1850 foi inaugurada uma escola para crianças; vejam a preocupação na educação, coisa que hoje em dia é muito rara.
As Assembléias eram trimestrais, podendo todos os Cooperados participar e havia uma reunião anual que terminava em um grande almoço.
Com todo este movimento, com a busca para o melhor ao Cooperado, notava-se uma cultura entre eles conforme o relato de um Chefe Cooperativista:
"A melhora das condições dos nossos sócios se revela em sua roupa, em seu comportamento, na sua maneira franca de falar. Dificilmente se pode imaginar como os transforma a sua adesão à Cooperativa".
Vemos que ocorreu uma grande mudança, não havendo mais fraude, não havendo mais receio de falsificação nem de preços excessivos, dando aos produtos o preço justo.
G.J.Holyake, líder Cooperativista, conheceu de perto a Cooperativa Rockdale e, elaborou um trabalho intitulado "Os 28 Tecelões de Rochdale".
Citaremos aqui alguns fatos importantes que ocorreram após o êxito de Rochdale. O grande feito iniciado pelos Pioneiros, muitos nomes importantes sobressaem como os de Stuart Mill, o conhecido Filósofo e Economista de fama mundial, os teólogos anglicanos liberais Charles Kingsleuy, J. Fr. Maaurice e J.M. Ludolow. Destes, vários eram socialistas cristãos, que, desde 1850, tomaram o lugar dos discípulos de Owen, sendo seus interesses nas Cooperativas de Produção, pertencentes a operários, ideal que Ludlow - um dos mais ardorosos dentre eles - trouxera da França. Não tiveram sucesso devido à falta de conhecimento dos Cooperados.
Em 1852, surgiu a primeira lei destinada a regulamentar o funcionamento das Cooperativas, "The Industrial and Provident Societies Act", que, emendada 10 anos mais tarde, assegurava às cooperativas a responsabilidade limitada e o direito de se federarem. Foi uma legislação inglesa que serviu para muitos outros países.
Com o sucesso alcançado em 1850 se constituía a "Sociedade do Moinho do Distrito de Rochdale" para produção de farinha de trigo pura, de primeira qualidade. Participavam desta Sociedade 15 Cooperativas, estando entre elas a dos Pioneiros.
Em 1852 a Cooperativa de Rochdale organizou uma secção de vendas no atacado com o objetivo de servir algumas Cooperativas da região de Lancashire e de Yorkshire, que não dispunham de recursos suficientes para fazerem suas compras em boas condições, mostrando a preocupação de cumprir um dos Princípios do Cooperativismo. Pouco depois se instalou, em Rochdale, uma fábrica de tecidos de algodão.
Em 1860 surgia o jornal "The Cooperator", que tornou um jornal do movimento, iniciando uma campanha em prol da criação de uma Cooperativa Central atacadista. Somente em 1863 surgiu a Sociedade Cooperativa Atacadista (Co-operative Whelesale Society) e que em 14 de maio de 1864, tendo 45 Cooperativas inscritas. Fracassava a tentativa dos atacadistas, que, instigados por varejistas, que se negavam a fornecer dos seus produtos às Sociedades Cooperativistas.
O seu primeiro presidente Abraham Greenwood, que tinha entrado na Cooperativa de Consumo em 1848, foi os seus principais fundadores da nova Sociedade, que destinava a eliminar os intermediários atacadistas, comprando diretamente nas fontes produtoras.
Com a criação da Federação que teve a sua denominação "The North of England Co-operative Wholesale Agency and Depot Society, que mais tarde foi rebatizada como CO-OPERATIVE WHOLESALE SOCIETY, grandes conquistas foram surgindo como, em 1874 uma secção bancária, para a aplicação das economias dos Cooperados. Em 1876 a Federação juntamente com suas Cooperativas, adquiriu o seu primeiro navio, o Plover, conseguindo estender-se até Nova York e no começo do século XX adquiriu uma fazenda de chá no Ceilão".
Com a grande projeção do Cooperativismo, em 1883 se organiza uma Liga Cooperativa Feminina (Women's Co-operative Guild) que divulgava o Sistema.
O Cooperativismo hoje está instalado em todas as nações e, cada um com sua cultura, temos um depoimento de Ainhoa Larranaga pesquisadora do Cooperativismo de Mondragón, que afirma: "Não sou de opinião de que a legislação de Mondragón deve ser copiada para outros paises, que têm diferentes contextos".
(*) Dr. Geraldo Volpe Andrade OAB/SP 48.547
Advogado formado pela faculdade de Direito de Guarulhos (1975). Militante no Fórum da Comarca de Santo André, indicado pelos juízes na Recuperação Judicial - Falências e Dissoluções de Sociedades, respectivamente como Liquidante. Ex. Assessor Jurídico da OCESP (15 anos). Administrador, Diretor Jurídico - Sindicooperativas.
Contato: juridico@sindicooperativas.com.br
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